Dez anos de esforço "por um triz", a aquisição do século na mineração por Glencore e Rio Tinto acabou por não acontecer

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A fusão de mais de uma década entre Glencore e Rio Tinto acaba por se desmoronar.

De acordo com a Bloomberg, local time 5 de fevereiro, as negociações entre Glencore e Rio Tinto romperam-se completamente. A Glencore insistia em deter 40% da participação na empresa resultante da fusão, enquanto os altos executivos da Rio Tinto perceberam que prolongar as negociações seria uma perda de tempo e decidiram encerrar o negócio.

O fracasso desta transação representa um grande revés para ambas as partes. Nos últimos dez anos, a produção de cobre da Glencore caiu mais de 40%, e a empresa tem tentado convencer os investidores de que o seu negócio já passou por uma transformação. Por outro lado, a Rio Tinto esperava, com esta operação, libertar-se da dependência excessiva do mercado de minério de ferro.

Após o fracasso da transação, as ações ADR da Glencore caíram mais de 6% no mesmo dia, levando os investidores a questionar se a empresa conseguirá desenvolver o seu negócio de cobre de forma independente.

Últimas 24 horas de colapso

De acordo com a Bloomberg, a Rio Tinto contratou a Evercore, liderada pelo experiente mediador de negociações britânico Simon Robey, bem como o JPMorgan e o Macquarie Group como consultores.

A reportagem indica que a Glencore trouxe o mediador de negociações experiente Michael Klein, que já tinha trabalhado com ela na tentativa de aquisição da Teck Resources em 2023, que acabou por fracassar.

A principal missão de Klein era transmitir aos altos executivos da Rio Tinto o valor do negócio da Glencore, enquanto o fundador da Glencore, Glasenberg, que é o maior acionista da empresa, passou a participar mais ativamente à medida que o prazo se aproximava, em parte para aliviar as preocupações da Rio Tinto de que ele não estaria disposto a fechar o negócio.

No entanto, 24 horas antes do prazo, a situação deteriorou-se repentinamente. A Rio Tinto começou a perceber cada vez mais claramente que a Glencore e Glasenberg não fariam muitas concessões em relação à exigência de 40% de participação.

Por parte da Glencore, houve frustração com o fato de a oferta estar vinculada ao preço das ações no dia do anúncio do negócio. A Glencore considerava que essa taxa arbitrária não refletia o desempenho passado nem o potencial futuro das duas empresas.

Segundo mais de seis fontes familiarizadas com o assunto entrevistadas pela Bloomberg, na manhã de quinta-feira, enquanto as negociações continuavam, a Rio Tinto ainda esperava que a Glencore demonstrasse disposição para reduzir a sua oferta. O CEO da Glencore, Nagle, e o CEO da Rio Tinto, Trott, fizeram duas chamadas na tentativa de quebrar o impasse.

Contudo, com o prazo a aproximar-se, ficou claro que uma extensão seria inútil. Na última conversa entre Nagle e Trott, discutiram como anunciar aos investidores o fracasso da transação.

De acordo com as regras do Reino Unido, a menos que haja um adquirente concorrente ou a Glencore solicite formalmente a reinicialização das negociações, as partes não poderão negociar novamente por pelo menos seis meses.

Progresso e pontos de discórdia nas negociações

O CEO da Glencore, Gary Nagle, preparou o terreno para as negociações já no verão passado.

Ele contactou informalmente Simon Trott, que tinha acabado de assumir como CEO da Rio Tinto. Após familiarizar-se com o novo cargo, os dois iniciaram negociações formais em dezembro, com o presidente da Rio Tinto, Dom Barton, a desempenhar um papel de liderança.

Essas negociações secretas terminaram no início de janeiro, quando o Financial Times do Reino Unido revelou que as negociações estavam em curso. Isso deu início a uma contagem decrescente: de acordo com as regras de aquisição do Reino Unido, a Rio Tinto tinha até às 17h de 5 de fevereiro, horário de Londres, para fazer uma oferta, retirar-se ou solicitar uma prorrogação.

Nos estágios iniciais, os responsáveis pelas duas empresas permaneceram relativamente à margem, enquanto a equipa de transações e os consultores da Rio Tinto visitaram várias vezes a sede da Glencore na Suíça para diligências devida. Era uma tarefa árdua, pois os negócios da Glencore eram extremamente complexos, abrangendo minas, fundições, refinarias e uma vasta rede de comércio e logística.

À medida que as diligências avançavam, ambos os lados acreditavam que, devido à carga de trabalho, uma prorrogação era provável. As diligências não revelaram sinais de perigo, mas o principal obstáculo era o preço que a Rio Tinto teria de pagar. As duas partes estabeleceram como objetivo apresentar uma oferta de aquisição antes de divulgar os resultados de meados de fevereiro.

Para o bilionário do setor mineiro Ivan Glasenberg, a fusão entre a Glencore e a Rio Tinto era a transação mais desejada por mais de uma década. Este fundador, que transformou a Glencore de uma comerciante de commodities em um gigante do setor, tentou várias vezes facilitar essa união.

No último mês, esse sonho parecia ao alcance. As duas partes iniciaram pela quarta vez negociações de fusão, quase todos os participantes acreditando que seria a mais séria de todas. Mas, em menos de 24 horas, tudo desmoronou repentinamente.

Negócio de grande significado estratégico

Este negócio tem um valor estratégico importante para ambas as partes.

Nos últimos dez anos, a produção de cobre da Glencore caiu mais de 40%, e a empresa tem tentado convencer os investidores de que o seu negócio já virou a página, numa altura em que os preços deste metal industrial atingiram máximos históricos.

A Rio Tinto, por sua vez, vê-se como uma das operações mais astutas do setor, esperando que esta transação liberte o potencial de crescimento do portefólio de cobre da Glencore. Sem esta operação, as perspetivas de lucro da Rio Tinto continuariam dependentes do mercado de minério de ferro, que enfrenta uma oferta crescente e uma procura fraca.

A fusão das duas empresas colocará a Rio Tinto à frente da BHP, tornando-se a maior mineradora do mundo. Os vastos negócios de carvão e cobre da Glencore, bem como o seu setor de comércio de commodities, serão integrados às operações de minério de ferro da Rio Tinto, que é gigante. Para a Rio Tinto, o objetivo principal é que a produção de cobre dobre, consolidando a sua posição como maior produtor mundial de cobre, e aumentar a capacidade futura em 1 milhão de toneladas.

Apesar de várias tentativas anteriores de fundir os negócios de mineração e comércio agressivos da Glencore com a cultura empresarial mais conservadora da Rio Tinto terem fracassado rapidamente, o risco de inação aumenta à medida que os concorrentes também procuram aquisições significativas de cobre, tornando as oportunidades difíceis de ignorar.

Impacto no mercado e especulações futuras

A queda de 7% no preço das ações da Glencore evidencia o impacto do fracasso na transação para os executivos e investidores da empresa, levando os analistas a questionar se a companhia conseguirá desenvolver o seu negócio de cobre de forma independente.

Para a Rio Tinto, a contínua queda do preço do minério de ferro serve como um lembrete dos riscos de abandonar a maior transação do setor até hoje, com o setor a virar o foco para a possibilidade de surgimento de um adquirente concorrente.

Ben Davis, analista da RBC Capital Markets, afirmou por e-mail:

Sempre acreditámos que a BHP era a mais provável de intervir. Agora, a BHP tem a oportunidade de agir, mas o desafio será explicar aos investidores australianos, que valorizam o setor, como podem ver valor na Rio Tinto que a Glencore não consegue perceber.**

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