No Fórum Económico Mundial realizado recentemente em Davos, os líderes mundiais deixaram clara uma tendência que não se tinha manifestado tão abertamente há anos: as nações de tamanho médio estão de pé, dispostas a questionar o domínio dos Estados Unidos sobre a ordem internacional. Mark Carney, primeiro-ministro canadiano, liderou esta revolução silenciosa com um discurso que arrancou uma prolongada ovação de pé da audiência, legitimando o que muitos pensavam em privado mas evitavam declarar publicamente.
A crítica direta sem nomear os Estados Unidos
Carney utilizou uma linguagem diplomática para expor o que considera o duplo padrão das grandes potências. Indicou como as nações estabelecidas abandonam as regras do comércio internacional quando estas não lhes convêm, abandonando a retórica do livre comércio assim que uma mudança política ou um tweet presidencial as afeta diretamente. Embora evitasse mencionar explicitamente Washington, a identificação era inevitável para qualquer observador do cenário comercial atual.
A situação do Canadá exemplifica perfeitamente esta contradição. Apesar de a sua economia estar profundamente integrada com a dos Estados Unidos, o país tem enfrentado pressão constante sob forma de tarifas e ameaças que o tratam praticamente como um território subordinado em vez de um parceiro comercial soberano. Os agricultores canadianos foram os primeiros a sofrer as consequências: perderam milhares de milhões de dólares em exportações de produtos agrícolas quando Washington impôs tarifas sobre as importações chinesas, apanhando o Canadá entre dois fogos sem ter sido consultado sobre a estratégia.
A geometria variável das novas alianças
Diante desta realidade, o governo canadiano propôs uma estratégia inovadora: a construção de uma “aliança de geometria variável” que permita acordos comerciais mais flexíveis e menos dependentes da vontade de uma única potência. Este conceito, embora novo na sua terminologia, reflete uma verdade fundamental: os países médios precisam de múltiplas opções em vez de uma única relação de dependência.
Para ilustrar o seu ponto, Carney destacou que o Canadá acaba de assinar uma folha de rota comercial com a China que, na sua avaliação, oferece maior estabilidade e previsibilidade do que a relação comercial com os Estados Unidos. Este movimento representa mais do que um simples acordo económico; simboliza uma reorientação estratégica onde os países médios procuram diversificar os seus vínculos políticos e comerciais.
A solidariedade emergente das potências médias
A reação de outros líderes europeus demonstrou que Carney não estava só nesta questão. Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen, representando respetivamente França e a União Europeia, juntaram-se à crítica construtiva sobre o comportamento dos aliados americanos, anunciando a preparação de medidas defensivas a partir de Bruxelas.
O comentário de Carney que mais ressoou na audiência foi singularmente eloquente: as potências médias estão literalmente “na mesa ou no menu” quando se trata de negociações internacionais. Em outras palavras, podem participar ativamente na configuração da ordem global ou simplesmente ver-se submetidas a decisões tomadas por outros. Prometeu apoiar a Dinamarca em questões relacionadas com a Groenlândia, invocando, se necessário, a estrutura da NATO para garantir que os interesses das nações mais pequenas também sejam respeitados.
Uma ordem global sob pressão
O que aconteceu em Davos 2026 foi mais do que uma troca de discursos diplomáticos: foi a manifestação visível de uma fractura no sistema internacional que tem prevalecido desde o final da Guerra Fria. A antiga ordem desigual, onde uma superpotência ditava as regras do jogo, está a transformar-se sob a pressão acumulada de nações que já não estão dispostas a aceitar um papel subordinado.
As perguntas que ficam sem resposta são cruciais: conseguirão as potências médias manter uma coligação suficientemente coesa para equilibrar a influência americana? Esta reconfiguração conduzirá a um sistema mais multilateral e equitativo, ou simplesmente a novas formas de competição e fragmentação? O que é certo é que o sistema internacional está a ser reescrito muito mais rapidamente do que a maioria dos analistas previu há apenas alguns anos.
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Em Davos 2026, potências médias levantam-se contra a hegemonia dos Estados Unidos
No Fórum Económico Mundial realizado recentemente em Davos, os líderes mundiais deixaram clara uma tendência que não se tinha manifestado tão abertamente há anos: as nações de tamanho médio estão de pé, dispostas a questionar o domínio dos Estados Unidos sobre a ordem internacional. Mark Carney, primeiro-ministro canadiano, liderou esta revolução silenciosa com um discurso que arrancou uma prolongada ovação de pé da audiência, legitimando o que muitos pensavam em privado mas evitavam declarar publicamente.
A crítica direta sem nomear os Estados Unidos
Carney utilizou uma linguagem diplomática para expor o que considera o duplo padrão das grandes potências. Indicou como as nações estabelecidas abandonam as regras do comércio internacional quando estas não lhes convêm, abandonando a retórica do livre comércio assim que uma mudança política ou um tweet presidencial as afeta diretamente. Embora evitasse mencionar explicitamente Washington, a identificação era inevitável para qualquer observador do cenário comercial atual.
A situação do Canadá exemplifica perfeitamente esta contradição. Apesar de a sua economia estar profundamente integrada com a dos Estados Unidos, o país tem enfrentado pressão constante sob forma de tarifas e ameaças que o tratam praticamente como um território subordinado em vez de um parceiro comercial soberano. Os agricultores canadianos foram os primeiros a sofrer as consequências: perderam milhares de milhões de dólares em exportações de produtos agrícolas quando Washington impôs tarifas sobre as importações chinesas, apanhando o Canadá entre dois fogos sem ter sido consultado sobre a estratégia.
A geometria variável das novas alianças
Diante desta realidade, o governo canadiano propôs uma estratégia inovadora: a construção de uma “aliança de geometria variável” que permita acordos comerciais mais flexíveis e menos dependentes da vontade de uma única potência. Este conceito, embora novo na sua terminologia, reflete uma verdade fundamental: os países médios precisam de múltiplas opções em vez de uma única relação de dependência.
Para ilustrar o seu ponto, Carney destacou que o Canadá acaba de assinar uma folha de rota comercial com a China que, na sua avaliação, oferece maior estabilidade e previsibilidade do que a relação comercial com os Estados Unidos. Este movimento representa mais do que um simples acordo económico; simboliza uma reorientação estratégica onde os países médios procuram diversificar os seus vínculos políticos e comerciais.
A solidariedade emergente das potências médias
A reação de outros líderes europeus demonstrou que Carney não estava só nesta questão. Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen, representando respetivamente França e a União Europeia, juntaram-se à crítica construtiva sobre o comportamento dos aliados americanos, anunciando a preparação de medidas defensivas a partir de Bruxelas.
O comentário de Carney que mais ressoou na audiência foi singularmente eloquente: as potências médias estão literalmente “na mesa ou no menu” quando se trata de negociações internacionais. Em outras palavras, podem participar ativamente na configuração da ordem global ou simplesmente ver-se submetidas a decisões tomadas por outros. Prometeu apoiar a Dinamarca em questões relacionadas com a Groenlândia, invocando, se necessário, a estrutura da NATO para garantir que os interesses das nações mais pequenas também sejam respeitados.
Uma ordem global sob pressão
O que aconteceu em Davos 2026 foi mais do que uma troca de discursos diplomáticos: foi a manifestação visível de uma fractura no sistema internacional que tem prevalecido desde o final da Guerra Fria. A antiga ordem desigual, onde uma superpotência ditava as regras do jogo, está a transformar-se sob a pressão acumulada de nações que já não estão dispostas a aceitar um papel subordinado.
As perguntas que ficam sem resposta são cruciais: conseguirão as potências médias manter uma coligação suficientemente coesa para equilibrar a influência americana? Esta reconfiguração conduzirá a um sistema mais multilateral e equitativo, ou simplesmente a novas formas de competição e fragmentação? O que é certo é que o sistema internacional está a ser reescrito muito mais rapidamente do que a maioria dos analistas previu há apenas alguns anos.